sexta-feira, 20 de novembro de 2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Mercado da Vila.

Morar na Vila Madalena significa vivenciar o avanço inexorável do mercado no seu cotidiano. Quando escrevo mercado não estou me referindo ao incrível avanço dos grandes empreendimentos imobiliários que derrubam quarteirões inteiros das antigas casinhas da Vila, ou do aumento de bares e restaurantes cobrando preços cada vez mais salgados. Falo do Pão-de-açúcar, o mercado que começou a ser construído há pouco em torno do prediozinho em que moro. Sim, prediozinho antigo, um só elevador, garagem pequena, nenhuma área de lazer, exceto a vista da cidade se estendendo no horizonte. Sorte minha que a obra do mercado não me tirou a vista, pois a censurou para alguns moradores dos andares mais baixos.
Acompanho a obra do mercado com curiosidade de menino de interior, vendo-a erguer um edifício em poucos dias, levantando poeira, lançando ruídos ao vento, movimentando a rua com caminhões e máquinas, as mais estranhas.
Mas nenhuma máquina poderia me fazer brilhar os olhos infantis como o guindaste que estacionou ao lado do prédio no meio da noite. 
Interrompeu meia pista da rua, fincou suas garras metálicas no asfalto, sacudiu-se, ergueu-se, sempre raivoso e feroz, emitindo guinchos e rugidos. As pessoas a sua volta pareciam formiguinhas desesperadas expulsas do formigueiro. Corriam de um lado ao outro, sempre com pressa, carregando ferramentas, sinalizando aos carros, vociferando com o monstro de aço.
O curioso disto tudo é que em nenhum momento eu vi algum representante do poder público para fiscalizar, controlar e cuidar dos cidadãos e do bem público que aquela monumental máquina parecia ameaçar. Não que ela tenha causado algum dano à rua ou às árvores em volta ou mesmo aos pedestres e carros que, assustados, fugiam dali às pressas. Não foi o caso. Mas poderia ser. O trânsito foi orientado pelos próprios amestradores do animal de ferro, que cravou suas garras na calçada, tomando conta do espaço-tempo ao redor, lançando-me de volta à era dos dinossauros.
O Dinossauro de metal ergueu sua bocarra, segurando no ar uma espécie de ventilador gigante, que imagino ser o refrigerador de ar. Colocou-o sobre o teto da obra, passando a alguns metros de minha janela, fazendo-me sentir num Parque temático (o tema eu não sei muito bem se pré-história ou ficção científica). Terminado o serviço, foram-se todos: máquinas e homens, devolvendo o silêncio (na medida do possível) à vizinhança.

Neste momento, enquanto escrevo, escuto, além das buzinas, motores e ruídos da cidade, um gemido estranho vindo do mercado, que já funciona a todo vapor. Um ruído como de barriga com fome ou talvez de barriga cheia demais, que sai continuamente do refrigerador que mantém as mercadorias fresquinhas dentro da loja. Aqui fora, continuamos com esse calor de estufa. A Vila fica cada dia mais quente, menos verde, mais abafada. Muito concreto e pouca abstração, apesar de tantos grafittis. Seria bom se o mercado esfriasse um pouco e nos deixasse relaxar um pouco. Agora estou falando daquele outro mercado, do qual este mercado vizinho faz parte, é claro! Quanto a este mercado aqui, que geme dia e noite, bom, acho que vou dar uma passadinha por lá. Não é pra comprar nada não, que tá tudo caro demais. É pra aproveitar o ar condicionado (que lá dentro é silencioso) e, quem sabe, esfriar minha cabeça.