Morar
na Vila Madalena significa vivenciar o avanço inexorável do mercado no seu
cotidiano. Quando escrevo mercado não estou me referindo ao incrível avanço dos
grandes empreendimentos imobiliários que derrubam quarteirões inteiros das
antigas casinhas da Vila, ou do aumento de bares e restaurantes cobrando preços
cada vez mais salgados. Falo do Pão-de-açúcar, o mercado que começou a ser construído
há pouco em torno do prediozinho em que moro. Sim, prediozinho antigo, um só
elevador, garagem pequena, nenhuma área de lazer, exceto a vista da cidade se
estendendo no horizonte. Sorte minha que a obra do mercado não me tirou a
vista, pois a censurou para alguns moradores dos andares mais baixos.
Acompanho
a obra do mercado com curiosidade de menino de interior, vendo-a erguer um
edifício em poucos dias, levantando poeira, lançando ruídos ao vento,
movimentando a rua com caminhões e máquinas, as mais estranhas.
Mas
nenhuma máquina poderia me fazer brilhar os olhos infantis como o guindaste que
estacionou ao lado do prédio no meio da noite.
Interrompeu
meia pista da rua, fincou suas garras metálicas no asfalto, sacudiu-se,
ergueu-se, sempre raivoso e feroz, emitindo guinchos e rugidos. As pessoas a
sua volta pareciam formiguinhas desesperadas expulsas do formigueiro. Corriam
de um lado ao outro, sempre com pressa, carregando ferramentas, sinalizando aos
carros, vociferando com o monstro de aço.
O
curioso disto tudo é que em nenhum momento eu vi algum representante do poder
público para fiscalizar, controlar e cuidar dos cidadãos e do bem público que
aquela monumental máquina parecia ameaçar. Não que ela tenha causado algum dano
à rua ou às árvores em volta ou mesmo aos pedestres e carros que, assustados, fugiam
dali às pressas. Não foi o caso. Mas poderia ser. O trânsito foi orientado
pelos próprios amestradores do animal de ferro, que cravou suas garras na
calçada, tomando conta do espaço-tempo ao redor, lançando-me de volta à era dos
dinossauros.
O
Dinossauro de metal ergueu sua bocarra, segurando no ar uma espécie de
ventilador gigante, que imagino ser o refrigerador de ar. Colocou-o sobre o
teto da obra, passando a alguns metros de minha janela, fazendo-me sentir num
Parque temático (o tema eu não sei muito bem se pré-história ou ficção
científica). Terminado o serviço, foram-se todos: máquinas e homens, devolvendo
o silêncio (na medida do possível) à vizinhança.
Neste
momento, enquanto escrevo, escuto, além das buzinas, motores e ruídos da
cidade, um gemido estranho vindo do mercado, que já funciona a todo vapor. Um
ruído como de barriga com fome ou talvez de barriga cheia demais, que sai
continuamente do refrigerador que mantém as mercadorias fresquinhas dentro da
loja. Aqui fora, continuamos com esse calor de estufa. A Vila fica cada dia
mais quente, menos verde, mais abafada. Muito concreto e pouca abstração,
apesar de tantos grafittis. Seria bom se o mercado esfriasse um pouco e nos
deixasse relaxar um pouco. Agora estou falando daquele outro mercado, do qual
este mercado vizinho faz parte, é claro! Quanto a este mercado aqui, que geme
dia e noite, bom, acho que vou dar uma passadinha por lá. Não é pra comprar nada
não, que tá tudo caro demais. É pra aproveitar o ar condicionado (que lá dentro
é silencioso) e, quem sabe, esfriar minha cabeça.