Semente
O apito do navio se fez ouvir em toda a extensão do
porto, ecoando por entre as docas, como se fosse o lamento de um grande animal
ferido. Um silêncio envergonhado tomou conta daqueles que permaneceram no cais,
enxugando lágrimas antecipadas de saudades vindouras. No alto do convés, os
lenços brancos - agitados ao vento pelos passageiros - de flâmulas de
despedida, logo retornaram a sua função mais usual, de secarem mágoas.
O horizonte engoliu a embarcação lentamente, criando a
ilusão de um tempo infinito. Mergulhada neste lapso temporal, Virgínia começava
sua aventura rumo à América, em busca do marido, já emigrado meses antes. Não
ia sozinha. Levava consigo a semente de esperança, plantada na terra pátria, e
que agora seria cultivada no Brasil. Ela se negava a nomear essa semente que já
se fazia notar em seu ventre. Menino ou menina, não importava, haveria de
vingar, crescer e florescer! Virgínia ainda carregava em sua memória o luto da
outra vida que se negara a germinar, vítima da miséria. Isso era evidente em
seu rosto tão jovem, e em seus lábios, incapazes de desenharem um sorriso.
Virgínia pensava em sua família, naquela deixada na
direção de onde o sol nascia, que agora chorava sua ausência, e naquela que a
aguardava, onde o sol se retirava. Ambas distantes daquele oceano de tristezas
em que navegava.
A longa travessia transcorreu como as ondas do vasto
mar, com altos e baixos, calmarias e tempestades. Afinal, quando Virgínia já
havia esquecido o que era fincar o pé em chão de terra, o navio aportou na
cidade do Rio de Janeiro.
A chegada mudou o espirito de Virgínia. Pouco antes do
navio firmar amarras, ela viu uma linda ave de plumas verdes e grande bico
sobrevoar o convés, depois notou os inúmeros tons de verde que a vegetação
daquela terra possuía, sentiu os odores de frutas nunca vistas, imaginou
sabores doces, amargos, azedos e estranhos, jamais experimentados, e,
finalmente, se juntou ao amor que a aguardava nesta terra nova, aquele que a
ajudara a plantar a semente de esperança em si.
Ali mesmo, com as palavras “mar” e “rio” em sua mente,
entre o mar que enfrentara durante semanas de viagem, e a cidade do Rio, que
acabara de conhecer, Virgínia e seu marido decidiram pelo nome daquele que
nasceria nesse novo lar, primeiro de tantas alegrias que sonhavam para o
futuro: Mário. Semeado no outro lado do
mar, gestado lá e cá, nascido à beira do rio, e criado nesta nova pátria, Mario
cresceu e ampliou a família.
E aqui estou, eu, neto de Virgínia, filho de Mário, a
testemunhar que pátria não é o local em que se nasce, nem aquele de onde se
vem, pois não são os Estados que nos definem. Pátria, mátria, frátria, não são
lugares, estão sempre algures, alhures, nenhures... O que nos define é um
estado de alma. É a este estado que todos nós pertencemos, humanos que somos.