terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Vigilantes

Os olhos atentos pareciam vigiar o mundo exterior, daquela pequena toca incrustada no barranco, na beira da estrada. Lá dentro, outros olhos pequeninos aguardavam a hora certa de explorar a claridade de fora. Do lado de cá, a centenas de metros de distância, meus olhos, por trás de uma teleobjetiva, acompanhavam cada movimento em torno do buraco.  Entre um clique e outro, minha expectativa aumentava, na tentativa de ver quantos filhotes sairiam de lá.
Ainda hoje tenho uma das fotos: enquadrada pelas bordas do retrato, um círculo envolve o rosto atento de uma coruja-buraqueira, onde dois pontos pretos e vivos olham diretamente para quem segura a foto diante de si. É difícil de dizer quem olha quem. É o fotógrafo que focaliza a coruja? Ou é a coruja que está atenta a ele? Sou eu que observo a imagem da ave enquadrada pela foto? Ou os olhos na foto me revelam?
Cansada de esperar pela minha desistência, ou talvez convencida das minhas intenções pacíficas, a mãe coruja finalmente saiu da toca e se colocou um pouco mais acima, no mesmo barranco, sempre vigilante.
Daquele buraco na terra foram surgindo algumas pequenas cabecinhas de coruja, de olhos vivos, com ânsia de luz e curiosidade pelo mundo. Em pouco tempo eram quatro pequenas corujas caminhando inseguras pelo gramado ao lado da toca.
Aquela imagem, para mim, era algo inédito. Eu estudava os hábitos alimentares da coruja-buraqueira há alguns meses e tudo o que eu conseguira ver eram algumas corujas adultas empoleiradas em postes, cupinzeiros, alto de barrancos ou espiando de dentro da toca. Meu trabalho se resumia em coletar e analisar algumas egagrópilas. Eu explico: são bolas regurgitadas por aves de rapina que contém pequenos ossos, pelos, e pedaços de insetos não digeridos. Através delas - coletadas próximas às tocas - eu conseguia descobrir que animais eram caçados pelas corujas.
Não posso dizer que era um trabalho chato, ao contrário, era estimulante. Sentia-me como um detetive em busca de evidências e provas, descobrindo que pequenos roedores, aves, besouros e até cobras eram atacados pelas buraqueiras. Mas nunca havia pegado em flagrante nenhum ataque.
E agora, ali, na minha frente eu era capaz de ver algo novo: os filhotes de coruja explorando o mundo exterior! Mas tudo o que passava pela minha cabeça era o medo de que fossem flagrados por alguma outra pessoa ou predador.
Não demorou muito e aquelas pequenas criaturas voltaram para sua casa e eu, pasmo, percebi que não havia feito nenhum registro daquele momento. Meus dedos ficaram paralisados sobre o botão da câmera, meus olhos encantados pela imagem, minha memória fixando cada movimento.


As corujas desapareceram no buraco e eu tirei meus olhos da câmera, abrindo meu campo de visão: o barranco na beira da estrada, os carros percorrendo o asfalto, a poluição dos escapamentos tomando o ar, a cidade crescendo em volta e os prédios no horizonte com suas janelas, pequenas tocas onde milhares de olhos vigiavam o mundo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ilhas flutuantes

Eu estava de férias na Bahia, com os pés na areia, os olhos no mar verde e a cabeça vazia como o céu azul, sem nuvens. Sentado na praia, olhava a maré subir e cobrir aos poucos os corais que se estendiam até bem longe, quase chegando ao horizonte. O Sol se retirava no mesmo ritmo da maré, lento e contínuo.
Então algo me chamou a atenção.
As crianças, pequenas e graúdas, corriam afoitas para um canto da praia, ali onde a areia se encontra com a vegetação, onde se escondem os lagartos e os siris. O que mais se escondia lá, para chamar tanta atenção? Corri como as crianças e descobri.
Saindo da areia, como pequenos seres pré-históricos que se desenterram, centenas de filhotes de tartaruga emergiam da areia e corriam desajeitadas em direção ao mar. As crianças gritavam eufóricas, acompanhando a difícil caminhada das tartarugas rumo às ondas. O mar as engolia sem pressa, uma após a outra.  Na água, sumiam ligeiras em meio às ondas, nadando ao mar aberto.
Olhava aquelas minúsculas tartarugas povoando o oceano como pequenas ilhas flutuantes que cresceriam pelo Atlântico. Daquelas que não naufragassem, teríamos notícias só daqui a 20, talvez 30 anos, quando já maduras, voltariam a colonizar o continente, depositando seus ovos na costa, naquele mesmo local em que estávamos agora.
E assim, viajando no tempo, imaginei as avós e bisavós e tataravós das tartarugas que sempre depositaram seus ovos nesta mesma praia, sob este mesmo sol e mar. Imaginei os índios pequeninos, acompanhados dos pais a observarem o mesmo espetáculo de agora. Imaginei o quanto modificamos essa paisagem ao longo dos séculos. Imaginei o que será desta praia daqui a trinta anos, quando algumas daquelas tartarugas que agora mergulhavam no mar, voltariam para a terra firme, depositando suas esperanças de futuro.


Imaginei tudo isso olhando para aquele imenso mar desconhecido e desejei boa-sorte às ilhas flutuantes.