terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ilhas flutuantes

Eu estava de férias na Bahia, com os pés na areia, os olhos no mar verde e a cabeça vazia como o céu azul, sem nuvens. Sentado na praia, olhava a maré subir e cobrir aos poucos os corais que se estendiam até bem longe, quase chegando ao horizonte. O Sol se retirava no mesmo ritmo da maré, lento e contínuo.
Então algo me chamou a atenção.
As crianças, pequenas e graúdas, corriam afoitas para um canto da praia, ali onde a areia se encontra com a vegetação, onde se escondem os lagartos e os siris. O que mais se escondia lá, para chamar tanta atenção? Corri como as crianças e descobri.
Saindo da areia, como pequenos seres pré-históricos que se desenterram, centenas de filhotes de tartaruga emergiam da areia e corriam desajeitadas em direção ao mar. As crianças gritavam eufóricas, acompanhando a difícil caminhada das tartarugas rumo às ondas. O mar as engolia sem pressa, uma após a outra.  Na água, sumiam ligeiras em meio às ondas, nadando ao mar aberto.
Olhava aquelas minúsculas tartarugas povoando o oceano como pequenas ilhas flutuantes que cresceriam pelo Atlântico. Daquelas que não naufragassem, teríamos notícias só daqui a 20, talvez 30 anos, quando já maduras, voltariam a colonizar o continente, depositando seus ovos na costa, naquele mesmo local em que estávamos agora.
E assim, viajando no tempo, imaginei as avós e bisavós e tataravós das tartarugas que sempre depositaram seus ovos nesta mesma praia, sob este mesmo sol e mar. Imaginei os índios pequeninos, acompanhados dos pais a observarem o mesmo espetáculo de agora. Imaginei o quanto modificamos essa paisagem ao longo dos séculos. Imaginei o que será desta praia daqui a trinta anos, quando algumas daquelas tartarugas que agora mergulhavam no mar, voltariam para a terra firme, depositando suas esperanças de futuro.


Imaginei tudo isso olhando para aquele imenso mar desconhecido e desejei boa-sorte às ilhas flutuantes.

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