Então, de repente, eu saio com minha filha (a mais nova, de 3 meses, pois a outra já anda com suas próprias pernas, lindas por sinal!) no carrinho de bebê. Estou feliz, já que a prefeitura acaba de construir aquelas rampas nas esquinas para que cadeirantes, quem volta da feira e pais com carrinhos de bebês, possam caminhar com alguma dignidade pelas calçadas. Paro na esquina e aperto o botão do semáforo, aguardando o homenzinho (não podia ser uma mulher, uma criança ou um pai com um carrinho de bebê?) ficar verde. Demora, mas ele finalmente fica verde! Tenho que ser rápido (assim como devem também os cadeirantes e aqueles que fazem a feira) pois ele fica vermelho numa questão de segundos! Mal consigo colocar a primeira rodinha do carrinho na faixa de segurança e vejo um carro cruzando em alta velocidade (sim, porque ele tem que ser rápido, antes que algum outro carro faça o mesmo que ele!). Ok, estou passeando com minha filha de 3 meses, ela sorri para mim, faz sol, o dia é lindo e este é apenas mais um idiota que acredita que os carros movem São Paulo! Sigo em frente, rápido, pois o farol logo vai fechar! Ufa! Consigo alcançar a calçada oposta e ela, minha filha, ainda sorri! Opa! Mas há um caminhão descarregando alguma coisa muito importante na obra do outro lado da calçada, o que obviamente impede minha passagem. Desvio pela guia rebaixada, invado a rua, e alcanço bravamente, não sem antes temer um tanto, o outro lado! Continuo pela calçada e logo encontro o portão de entrada de um edifício, tomado por um táxi que bloqueia a calçada. Espero, imaginando que descerá de lá uma senhora de idade, que, sim, deve ter sua vida facilitada. Mas não! É apenas uma mulher (não sei precisar a idade dela, mas com certeza viveu menos que eu) com suas compras de supermercado! Ok, encontro um espaço e me esgueiro por entre o táxi e o muro e chego na próxima esquina. Novo semáforo, nova rampa feita pela prefeitura, novos carros invadindo a faixa! Sim, pois eles (os indivíduos dentro dos carros!) acham que o semáforo só serve para os carros! Respiro fundo, olho para minha filha e ela, nesta altura do campeonato já está com aquele olhar de “que é que está acontecendo no mundo aí fora!?”. Brinco com ela, falo alguma bobagem, tentando acalmá-la, enquanto um sujeito para do meu lado fumando um cigarro e falando ao celular. Por sorte a faixa de pedestres está livre e avanço rumo à pracinha! Mas, antes da pracinha, me deparo com uma motocicleta barulhenta que quase perfura meus tímpanos com seu escapamento barulhento (imagine o de minha filhinha!) A moto é linda, toda cromada, um espetáculo, brilhante! O motociclista também é um espetáculo à parte, vestido de couro, capacete estiloso e o escambáu! Me pergunto se faltou dinheiro para um escapamento silencioso, porque para o resto sobrou! Finalmente chego à pracinha e minha filhinha já está dormindo (sei lá como!), mas não posso parar nem por um segundo, senão ela acorda! Então lá vou eu andando com o carrinho pela praça sem parar, cruzando com mamães e papais e avós com seus carrinhos e filhinhos e netinhos, todos dormindo, mas ninguém pode parar se não eles acordam! Quando finalmente acho que posso parar, sentar num banco da praça e enganar o sono de minha filha, balançando o carrinho, aproxima-se uma senhora muito distinta e educada:
- Que linda! Ela já acordou! O meu netinho ainda está dormindo...
(Acordou?! Como assim? Ela deveria estar dormindo!)
- Pois é – respondo.
- Ele também acorda fácil – me diz a senhora – mas o segredo é não parar nunca! Me dá licença se não ele acorda! – E ela se vai com seu neto.
E eu volto pra casa com minha filhinha acordada, assustada, sem entender nada!
- Papai também não entende nada! – digo a ela, fazendo uma careta, em meio à confusão da cidade!
Então ela sorri!
É tudo o que eu preciso!
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