Aqui, a trincheira é o mar azul, coberto de corpos boiando, que se estende em direção
ao ciclorama.
Ao fundo, no horizonte, brilhos de explosões.
Um agente da
imigração, na praia, de costas para o público, observa a cena.
A plateia
assiste a tudo num silêncio respeitoso.
O
agente inclina-se e retira o corpo de uma criança do mar, um boneco de
ventríloquo.
Quando o agente se vira para a plateia, está vestindo um smoking,
é um apresentador.
Apresentador
- Boa noite, senhoras e senhores! Sejam muito bem-vindos ao meu teatro. Eu sou
o mestre de cerimônias e este aqui é meu coleguinha. Olá, como é o seu nome?
O boneco
permanece imovel.
Apresentador
- Que falta de educação! Diga oi a todos!
Boneco
imóvel.
Apresentador
- Me desculpem, senhoras e senhores, ele é novo por aqui. Não tem bons modos!
Ei, fale alguma coisa!
Boneco
não se move.
Apresentador
- Ele não fala nossa língua, senhoras e senhores. É preciso paciência. Em breve
ele aprende.
O
boneco abre os olhos.
Apresentador
- Olhem só! Acordou! O que você tem a nos dizer?
Depois
de um longo silêncio ele vira a cabeça para um lado e para o outro, olhando em volta e
pergunta:
Boneco
- Estamos em paz?
O
apresentador olha para a plateia em silêncio.
Volta-se para o fundo do palco
com a criança nos braços.
Depois de um tempo a cabeça do (agora) agente de
imigração tomba para um lado, a do boneco para o outro.
A luz vai se apagando
lentamente. Apenas os brilhos de explosões ao fundo permanecem.
Ouvimos o som
do mar, depois estática de rádio que, aos poucos, sintoniza várias rádios com
notícias sobre os refugiados em inglês, italiano, francês, alemão, grego,
turco, etc...
Tristemente belo.
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