quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Cena da trincheira II


Aqui, a trincheira é o mar azul, coberto de corpos boiando, que se estende em direção ao ciclorama. 
Ao fundo, no horizonte, brilhos de explosões. 
Um agente da imigração, na praia, de costas para o público, observa a cena. 
A plateia assiste a tudo num silêncio respeitoso.
O agente inclina-se e retira o corpo de uma criança do mar, um boneco de ventríloquo. 
Quando o agente se vira para a plateia, está vestindo um smoking, é um apresentador. 

Apresentador - Boa noite, senhoras e senhores! Sejam muito bem-vindos ao meu teatro. Eu sou o mestre de cerimônias e este aqui é meu coleguinha. Olá, como é o seu nome?

O boneco permanece imovel.

Apresentador - Que falta de educação! Diga oi a todos!

Boneco imóvel.

Apresentador - Me desculpem, senhoras e senhores, ele é novo por aqui. Não tem bons modos! Ei, fale alguma coisa!

Boneco não se move.

Apresentador - Ele não fala nossa língua, senhoras e senhores. É preciso paciência. Em breve ele aprende.

O boneco abre os olhos.

Apresentador - Olhem só! Acordou! O que você tem a nos dizer?

Depois de um longo silêncio ele vira a cabeça para um lado e para o outro, olhando em volta e pergunta:

Boneco - Estamos em paz?


O apresentador olha para a plateia em silêncio. 
Volta-se para o fundo do palco com a criança nos braços. 
Depois de um tempo a cabeça do (agora) agente de imigração tomba para um lado, a do boneco para o outro. 
A luz vai se apagando lentamente. Apenas os brilhos de explosões ao fundo permanecem. 
Ouvimos o som do mar, depois estática de rádio que, aos poucos, sintoniza várias rádios com notícias sobre os refugiados em inglês, italiano, francês, alemão, grego, turco, etc...

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