1
De tocaia,
sobre o fio de eletricidade, o sabiá aguardava um momento de distração e,
rápido como um raio, mergulhava em direção à bacia cheia de ração. Pegava sua
parte com o bico e voltava para o fio, a observar a movimentação do cão.
O cão, por
sua vez, deitava-se displicente a aguardar o momento de distração da ave. Seria
apenas uma única vez, e nunca mais. Talvez, por isso mesmo, aguardasse sem
pressa o exato momento, como um jogador que pouco se importa em perder algumas
partidas, de olho no resultado final.
E eu
observava diariamente a luta pela comida, entre o cão e a ave, da minha cozinha.
Ali também o cachorro fazia as vezes de sabiá, e eu, de cão preguiçoso, vendo-o
roubar restos do lixo.
Com o
tempo, o sabiá percebeu que o melhor estava na cozinha, e assim passaram a ser
dois a me furtar, ou melhor, dois a trabalhar em cooperação: enquanto eu me
ocupava de um, o outro aproveitava e me furtava; enquanto eu espantava o outro,
o um já estava longe com seu prêmio.
E o tempo
foi passando, o cachorro engordando e o sabiá cada dia mais alegre e cantante.
Eles não mais se preocupavam um com o outro, e nem mesmo comigo. E assim os
dias corriam lentos e preguiçosos.
Até que
surgiu um gato.
Um gato é
coisa bem diversa de uma ave ou de um cão, mais ainda de um ser como eu. Um
gato é capaz de comer a ração, o sabiá e a minha comida, sem ajudar e sem
ajuda.
E foi
exatamente o que ele fez.
2
Eu resolvi
estudar Biologia porque me encantava a vida. Não havia nenhum outro motivo além
desse, óbvio e até ingênuo: gosto da vida (bio), logo estudo a vida (logia).
Mas a vida na faculdade não era exatamente como eu imaginara que seria, cheia
de vida! Havia a morte também e com ela, seu estudo.
Fiz aulas
de taxidermia, a arte de conservar o corpo sem vida; fiz aulas de anatomia
comparada onde, em meio ao cheiro de éter, confrontávamos animais mortos com
seres humanos mortos; e fiz também experiências macabras, ou melhor,
científicas. Mas nada poderia ser tão terrível como a aula de fisiologia
animal.
Para cada
turma, de seus 30 alunos, um cachorro servia de instrumento para estudarmos os
mistérios da vida. O professor narrava o funcionamento do corpo do cão,
deixando clara a correspondência entre aquela vida e a nossa:
- O sangue
corre nas veias, em direção ao coração, que o bombeia rumo aos tecidos;
substâncias produzidas pelo corpo regulam esse funcionamento, controlando a
pressão arterial. A adrenalina, despejada na circulação sanguínea, em algum
momento de perigo, aumenta a tensão arterial, acelera os batimentos cardíacos e
prepara o corpo para a fuga.
Mas ali,
naquele laboratório, o cachorro em perigo não tinha o menor controle sobre seu
corpo. Nós o controlávamos, sob a coordenação de professores. Sedado sobre a
maca de metal inox, o cão arfava, levando para seu pulmão o ar viciado de um
laboratório pleno de curiosidade, medo e terror.
Injetada a
adrenalina na corrente do cachorro, ela corria também pelo meu corpo - minhas
pupilas dilatadas enxergando para além daquela agonia, meu estômago embrulhado,
minha pele pálida - acompanhando o derradeiro momento.
- O
coração, exaurido pelo esforço, finalmente vai à falência!
Na maca, um
corpo inerte, sem vida. Em meus olhos, uma vida inerte, sem corpo.
Na
expressão dos jovens, lia-se o futuro de cada um deles: obstinação, surpresa,
inquietação, piedade, desconfiança, dúvida. Palavras que com certeza podem
construir um cientista. No meu caso, a única palavra que poderia me definir,
ali naquele momento, era contradição. Palavra que acredito também definir a
ciência, mas que me levou para a arte.
Observando
aquela marionete viva, nas mãos da ciência, meus pensamentos vagavam por outro
universo. Meus colegas aprendiam sobre fisiologia animal. E eu sobre quem era e
quem gostaria de ser.
3
Enquanto eu
escrevia este texto, uma fila de formigas caminhava pela mesa em direção ao
computador, entrando por entre as teclas, em busca de alimento. Ou talvez fossem
minúsculas formigas-correição, como eu, buscando palavras.
Estas
formigas são conhecidas por caminharem em grandes grupos por longas distâncias,
às vezes sob o solo da mata, atrás de insetos, artrópodes e pequenos
vertebrados. Os moradores do interior do Brasil, que as chamam de Taocas, não
se importam com a passagem delas por suas casas já que realizam uma verdadeira,
e ecológica, desinfestação.
Assim, também
eu permitia às pequenas Taocas que me ajudassem a criar o texto que se ia
construindo dali para frente. Quem sabe se estes pequenos seres, ao entrarem em
meio às letras, me permitissem encontrar as palavras certas. Talvez fossem
apenas correições, editando meu pensamento, construindo outro sentido para esta
crônica.
Em todo
caso já não era mais possível saber se era eu quem escrevia sobre as formigas,
ou se eram elas que escreviam sobre mim.
Em outras
palavras, nós escrevíamos por meio de um autor ou, se preferir, o autor falava
por meio de formigas.
Buscávamos
não apenas as letras e palavras certas, mas acima de tudo entender o porquê do
texto. Caminhando subterraneamente descobríamos que o sentido aparente exposto
no papel não era o mesmo que se escondia por baixo dele. Era como se para cada
frase escrita houvesse apenas uma palavra, às vezes até mesmo uma letra, que
concentrasse todo o significado.
Mais que
escolhas de palavras a serem digitadas, importavam as palavras a serem
apagadas. Eram os espaços e vazios entre as palavras que pareciam significar,
como se fosse necessário encontrar um caminho em meio a elas para finalmente
poder escrevê-las.
E assim,
entre vazios e dúvidas, entre espaços e incertezas, palavra por palavra foi
sendo apagada, até que soçobrou todo o texto.
Assim como
entraram, as formigas saíram do teclado, atravessando a mesa em direção à
janela.
Talvez
buscassem como eu, outras palavras.
Esta crônica foi contemplada com o 2o. lugar no PRÊMIO SESC DE CRÔNICAS RUBEM BRAGA 2014. Aqui o link.