domingo, 18 de agosto de 2019

sexta-feira, 15 de junho de 2018

"Longitude 33o. Oeste" pré-selecionado no Prêmio SESC de Literatura 2018


O Romance "Longitude 33o. Oeste" foi pré-selecionado no Prêmio SESC de Literatura 2018!

As comissões finais foram formadas por Daniel Galera e Letícia Wierzchowski (Conto) e Beatriz Rezende e Flávio Carneiro (Romance), que selecionaram os vencedores dentre as obras pré-selecionadas listadas abaixo.



ROMANCE


  • A CASA DAS BOLSAS - JULIANA MILMAN CERVO
  • A CIDADE E OS NOMES - VIVALDO LIMA TRINDADE
  • A LENDA DE UAKYTO - CELSO LUIZ COSTA
  • ALMA MATER - LUIZ FERNANDO BRUSSOLO
  • AS CONFISSÕES DE BENITO BALTAZAR - MARCOS CESAR DA SILVA
  • AS SOMBRAS DE NOSSAS CONFISSÕES - BRUNO GABRIEL CASSEMIRO ASSUNÇÃO
  • ATÉ ONDE O AMOR FOR CAPAZ DE ME LEVAR - ROMILDO GALDINO DOS SANTOS
  • BREVE RELATO DE CASO DE UM ENTE ESQUECIDO - LUCAS RAPHAEL CAITANO LAURENTINO
  • CARNAVAL DARK - MARCOS DE AQUINO SANTOS
  • CATÁLOGO DE RESSENTIMENTOS - SAMIR MARTINS ARRAGE JÚNIOR
  • FRENTE FRIA - LUCIO DE SOUZA CARVALHO JÚNIOR
  • HISTÓRIAS DE JÚLIA - SUÊNIO CAMPOS DE LUCENA
  • LONGITUDE 33º OESTE - ROBERTO BASÍLIO DE MATOS
  • MAGDALENA USA AS MÃOS - JULIANA LEITE ARANTES
  • NÃO ARRANQUEM OS VERMES DE MIM - ANDERSON BERNARDES
  • NASCI SEM UM CAMINHO DE VOLTA - RAIMUNDO NONATO LOPES NETO
  • NO BEIJO ESTAVA O SILÊNCIO LOQUAZ - MARCELLO RICARDO ALMEIDA
  • O HORIZONTE É UMA PAREDE - ANDRÉ CÚNICO VOLPATO
  • O QUE PESA NO NORTE - TIAGO DANTAS GERMANO
  • O SOM DO UNIVERSO - FERNANDA MEIRELLES DA ROCHA
  • O TREM PARA KANDOOLA - RÔMULO CÉSAR LAPENDA RODRIGUES DE MELO
  • PEQUENO JESUS - CARLOS HENRIQUE DE ARAUJO
  • REMISNUERA - LUIZ CARLOS JUNQUEIRA MACIEL
  • RUI ROSCO - ANGELA ISSLER MARSIAJ
  • VIOLETA - AMANDA CRISTINA MADOGLIO HENRIQUE

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Mercado da Vila.

Morar na Vila Madalena significa vivenciar o avanço inexorável do mercado no seu cotidiano. Quando escrevo mercado não estou me referindo ao incrível avanço dos grandes empreendimentos imobiliários que derrubam quarteirões inteiros das antigas casinhas da Vila, ou do aumento de bares e restaurantes cobrando preços cada vez mais salgados. Falo do Pão-de-açúcar, o mercado que começou a ser construído há pouco em torno do prediozinho em que moro. Sim, prediozinho antigo, um só elevador, garagem pequena, nenhuma área de lazer, exceto a vista da cidade se estendendo no horizonte. Sorte minha que a obra do mercado não me tirou a vista, pois a censurou para alguns moradores dos andares mais baixos.
Acompanho a obra do mercado com curiosidade de menino de interior, vendo-a erguer um edifício em poucos dias, levantando poeira, lançando ruídos ao vento, movimentando a rua com caminhões e máquinas, as mais estranhas.
Mas nenhuma máquina poderia me fazer brilhar os olhos infantis como o guindaste que estacionou ao lado do prédio no meio da noite. 
Interrompeu meia pista da rua, fincou suas garras metálicas no asfalto, sacudiu-se, ergueu-se, sempre raivoso e feroz, emitindo guinchos e rugidos. As pessoas a sua volta pareciam formiguinhas desesperadas expulsas do formigueiro. Corriam de um lado ao outro, sempre com pressa, carregando ferramentas, sinalizando aos carros, vociferando com o monstro de aço.
O curioso disto tudo é que em nenhum momento eu vi algum representante do poder público para fiscalizar, controlar e cuidar dos cidadãos e do bem público que aquela monumental máquina parecia ameaçar. Não que ela tenha causado algum dano à rua ou às árvores em volta ou mesmo aos pedestres e carros que, assustados, fugiam dali às pressas. Não foi o caso. Mas poderia ser. O trânsito foi orientado pelos próprios amestradores do animal de ferro, que cravou suas garras na calçada, tomando conta do espaço-tempo ao redor, lançando-me de volta à era dos dinossauros.
O Dinossauro de metal ergueu sua bocarra, segurando no ar uma espécie de ventilador gigante, que imagino ser o refrigerador de ar. Colocou-o sobre o teto da obra, passando a alguns metros de minha janela, fazendo-me sentir num Parque temático (o tema eu não sei muito bem se pré-história ou ficção científica). Terminado o serviço, foram-se todos: máquinas e homens, devolvendo o silêncio (na medida do possível) à vizinhança.

Neste momento, enquanto escrevo, escuto, além das buzinas, motores e ruídos da cidade, um gemido estranho vindo do mercado, que já funciona a todo vapor. Um ruído como de barriga com fome ou talvez de barriga cheia demais, que sai continuamente do refrigerador que mantém as mercadorias fresquinhas dentro da loja. Aqui fora, continuamos com esse calor de estufa. A Vila fica cada dia mais quente, menos verde, mais abafada. Muito concreto e pouca abstração, apesar de tantos grafittis. Seria bom se o mercado esfriasse um pouco e nos deixasse relaxar um pouco. Agora estou falando daquele outro mercado, do qual este mercado vizinho faz parte, é claro! Quanto a este mercado aqui, que geme dia e noite, bom, acho que vou dar uma passadinha por lá. Não é pra comprar nada não, que tá tudo caro demais. É pra aproveitar o ar condicionado (que lá dentro é silencioso) e, quem sabe, esfriar minha cabeça. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Cena da trincheira II


Aqui, a trincheira é o mar azul, coberto de corpos boiando, que se estende em direção ao ciclorama. 
Ao fundo, no horizonte, brilhos de explosões. 
Um agente da imigração, na praia, de costas para o público, observa a cena. 
A plateia assiste a tudo num silêncio respeitoso.
O agente inclina-se e retira o corpo de uma criança do mar, um boneco de ventríloquo. 
Quando o agente se vira para a plateia, está vestindo um smoking, é um apresentador. 

Apresentador - Boa noite, senhoras e senhores! Sejam muito bem-vindos ao meu teatro. Eu sou o mestre de cerimônias e este aqui é meu coleguinha. Olá, como é o seu nome?

O boneco permanece imovel.

Apresentador - Que falta de educação! Diga oi a todos!

Boneco imóvel.

Apresentador - Me desculpem, senhoras e senhores, ele é novo por aqui. Não tem bons modos! Ei, fale alguma coisa!

Boneco não se move.

Apresentador - Ele não fala nossa língua, senhoras e senhores. É preciso paciência. Em breve ele aprende.

O boneco abre os olhos.

Apresentador - Olhem só! Acordou! O que você tem a nos dizer?

Depois de um longo silêncio ele vira a cabeça para um lado e para o outro, olhando em volta e pergunta:

Boneco - Estamos em paz?


O apresentador olha para a plateia em silêncio. 
Volta-se para o fundo do palco com a criança nos braços. 
Depois de um tempo a cabeça do (agora) agente de imigração tomba para um lado, a do boneco para o outro. 
A luz vai se apagando lentamente. Apenas os brilhos de explosões ao fundo permanecem. 
Ouvimos o som do mar, depois estática de rádio que, aos poucos, sintoniza várias rádios com notícias sobre os refugiados em inglês, italiano, francês, alemão, grego, turco, etc...

domingo, 30 de agosto de 2015

Passeio de bicicleta

Um dia desses resolvi experimentar a ciclovia e convidei minha filha mais velha. Convite aceito, lá fomos nós!
Até então minha visão da ciclovia era ou de pedestre, feliz por não correr mais o risco de ser atropelado na calçada por uma bicicleta; ou de motorista de automóvel, feliz por não correr mais o risco de atropelar uma bicicleta na rua.
Minha experiência de pedestre é a de que as calçadas da cidade precisam ser consertadas, pois estão cheias de buracos e mudam de textura, forma e tamanho na frente de cada casa. E eu, vez por outra, dou o azar de tropeçar nestas calçadas. Sempre achei estranha a responsabilidade da conservação da calçada ser do morador, uma vez que é um bem público, o que acaba gerando a falsa ideia de que a calçada na frente de cada casa é particular.
E minha experiência de motorista é a de que as ruas da cidade precisam ser consertadas, pois estão cheias de buracos e cada empresa que faz um buraco (para a água, luz, gás, telefonia e etc.) deixa um remendo pior que o outro e eu, azarado que sou, acabo sempre caindo no buraco. Sempre achei estranha, também, a ideia de que dentro do carro as pessoas se sentem num mundo privado, embora estejam, na verdade, em um espaço público – a rua. Nunca vi ninguém xingar o outro, de dentro de seu terno Armani ou de seu Jeans, só porque o outro entrou na sua frente na calçada, ou diminuiu a velocidade para entrar em casa sem sinalizar, ou desviou rapidamente de uma pomba que ciscava no passeio público.
Assim, não preciso comentar sobre os buracos na ciclovia (já os imaginava), ou sobre o caso de que a ciclovia teria retirado o espaço dos carros (estes já nos tiraram espaços demais na cidade).
Bom, retomando a narrativa, lá fomos nós, eu e minha filha, em busca daquelas bicicletas que certo Banco oferece no espaço público. Baixei o aplicativo do Banco A, mas só encontrei bicicletas do Banco B. Depois de rodar um tanto, superei minha falta de sorte e consegui retirar as bicicletas e usá-las sem gastar um tostão. Fiquei pensando apenas no porquê de haver dois sistemas de bicicletas, oferecidos no espaço público, por dois Bancos. Se querem nos oferecer um serviço (ideia muito louvável), porque não unificam os sistemas? Afinal, as bicicletas são utilizadas no espaço público, permitem aos Bancos publicidade no espaço público e, portanto, para o bem público, seria bem melhor termos mais locais onde pegar e devolver as bicicletas. É claro que isso daria um problema enorme aos Bancos, pois imagine só o bicicletário do Banco A só com bicicletas do Banco B! Ou vice-versa! Bom, então talvez devêssemos ter um sistema público de bicicletas, unificado, que poderia vender espaço de publicidade para qualquer Banco. Será mesmo que é uma boa ideia? Lembro-me agora dos pontos de ônibus que possuem um espaço enorme para a publicidade e, no entanto, para o meu azar, dificilmente encontro informações sobre as linhas que por lá passam, ou o mapa de transporte urbano da cidade ou, ao menos, o trajeto das linhas mais próximas.
Mas eu estava falando do meu passeio de bicicleta com minha filha. Resolvemos pegar a Avenida Sumaré, em direção à Vila Madalena, e percebi (a duras penas, para não dizer a duras pernas) que o tal trajeto é uma subida. Leve, mas infinita. Aí me lembrei de alguém que disse que a cidade de São Paulo não foi feita para bicicletas, pois tem muitas subidas. Mas onde tem subida, também tem descida! Nada melhor do que descer desembestado numa ladeira, sentindo o vento no rosto. Além do mais, se não é possível usar bicicleta na subida, também não deveria ser possível usar os pés. Sim, porque não faltam ladeiras em São Paulo, e algumas impossíveis até para os carros, especialmente em dias de chuva! E aí passei por baixo do metrô, na estação Sumaré. E lembrei-me da ironia de termos uma estação chamada Sumaré, que passa por cima da Avenida Sumaré, mas sem acesso à Avenida Sumaré! Nem uma escadinha! Nada! Que azar!

E assim, entre uma pedalada e outra, conversando sobre as contradições de São Paulo, eu e minha filha (ciclistas e pedestres que fomos, ou somos, ou queremos ser, como tantos nesta cidade), terminamos nosso passeio, felizes e cansados, subindo a pé uma ladeira e ultrapassando a fila de carros que, praticamente estacionados, mal conseguiam mover-se. Provavelmente alguém diria que era culpa de alguma bicicleta espaçosa; outro, quem sabe, de algum pedestre que, insolente, resolvera atravessar na faixa de segurança em pleno horário do rush; e eu ousaria dizer que a culpa era de alguns carros a mais naquelas ruas, justamente naquele horário, naquele dia, nesta cidade! Mas não, não pode ser. Seria muito azar!

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Crônica de um passeio público.

Então, de repente, eu saio com minha filha (a mais nova, de 3 meses, pois a outra já anda com suas próprias pernas, lindas por sinal!) no carrinho de bebê. Estou feliz, já que a prefeitura acaba de construir aquelas rampas nas esquinas para que cadeirantes, quem volta da feira e pais com carrinhos de bebês, possam caminhar com alguma dignidade pelas calçadas. Paro na esquina e aperto o botão do semáforo, aguardando o homenzinho (não podia ser uma mulher, uma criança ou um pai com um carrinho de bebê?) ficar verde. Demora, mas ele finalmente fica verde! Tenho que ser rápido (assim como devem também os cadeirantes e aqueles que fazem a feira) pois ele fica vermelho numa questão de segundos! Mal consigo colocar a primeira rodinha do carrinho na faixa de segurança e vejo um carro cruzando em alta velocidade (sim, porque ele tem que ser rápido, antes que algum outro carro faça o mesmo que ele!). Ok, estou passeando com minha filha de 3 meses, ela sorri para mim, faz sol, o dia é lindo e este é apenas mais um idiota que acredita que os carros movem São Paulo! Sigo em frente, rápido, pois o farol logo vai fechar! Ufa! Consigo alcançar a calçada oposta e ela, minha filha, ainda sorri! Opa! Mas há um caminhão descarregando alguma coisa muito importante na obra do outro lado da calçada, o que obviamente impede minha passagem. Desvio pela guia rebaixada, invado a rua, e alcanço bravamente, não sem antes temer um tanto, o outro lado! Continuo pela calçada e logo encontro o portão de entrada de um edifício, tomado por um táxi que bloqueia a calçada. Espero, imaginando que descerá de lá uma senhora de idade, que, sim, deve ter sua vida facilitada. Mas não! É apenas uma mulher (não sei precisar a idade dela, mas com certeza viveu menos que eu) com suas compras de supermercado! Ok, encontro um espaço e me esgueiro por entre o táxi e o muro e chego na próxima esquina. Novo semáforo, nova rampa feita pela prefeitura, novos carros invadindo a faixa! Sim, pois eles (os indivíduos dentro dos carros!) acham que o semáforo só serve para os carros! Respiro fundo, olho para minha filha e ela, nesta altura do campeonato já está com aquele olhar de “que é que está acontecendo no mundo aí fora!?”. Brinco com ela, falo alguma bobagem, tentando acalmá-la, enquanto um sujeito para do meu lado fumando um cigarro e falando ao celular. Por sorte a faixa de pedestres está livre e avanço rumo à pracinha! Mas, antes da pracinha, me deparo com uma motocicleta barulhenta que quase perfura meus tímpanos com seu escapamento barulhento (imagine o de minha filhinha!) A moto é linda, toda cromada, um espetáculo, brilhante! O motociclista também é um espetáculo à parte, vestido de couro, capacete estiloso e o escambáu! Me pergunto se faltou dinheiro para um escapamento silencioso, porque para o resto sobrou! Finalmente chego à pracinha e minha filhinha já está dormindo (sei lá como!), mas não posso parar nem por um segundo, senão ela acorda! Então lá vou eu andando com o carrinho pela praça sem parar, cruzando com mamães e papais e avós com seus carrinhos e filhinhos e netinhos, todos dormindo, mas ninguém pode parar se não eles acordam! Quando finalmente acho que posso parar, sentar num banco da praça e enganar o sono de minha filha, balançando o carrinho, aproxima-se uma senhora muito distinta e educada:
- Que linda! Ela já acordou! O meu netinho ainda está dormindo...
(Acordou?! Como assim? Ela deveria estar dormindo!)
- Pois é – respondo.
- Ele também acorda fácil – me diz a senhora – mas o segredo é não parar nunca! Me dá licença se não ele acorda! – E ela se vai com seu neto.
E eu volto pra casa com minha filhinha acordada, assustada, sem entender nada! 
- Papai também não entende nada! – digo a ela, fazendo uma careta, em meio à confusão da cidade!
Então ela sorri!
É tudo o que eu preciso!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Exercício da Solidão*


escrever é um exercício de solidão
antever o início da confusão
rever o vazio da razão
é ver o vício
são
.                                  exercício da solidão.
é
início
o devir do cio
do ócio para a ação
acender o pavio da criação
e viver o armistício com a solidão


* Poema selecionado e publicado no livro do 15o. Concurso de Poesias da Universidade Federal de São João del-Rei.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

bio.grafia

1
De tocaia, sobre o fio de eletricidade, o sabiá aguardava um momento de distração e, rápido como um raio, mergulhava em direção à bacia cheia de ração. Pegava sua parte com o bico e voltava para o fio, a observar a movimentação do cão.
O cão, por sua vez, deitava-se displicente a aguardar o momento de distração da ave. Seria apenas uma única vez, e nunca mais. Talvez, por isso mesmo, aguardasse sem pressa o exato momento, como um jogador que pouco se importa em perder algumas partidas, de olho no resultado final.
E eu observava diariamente a luta pela comida, entre o cão e a ave, da minha cozinha. Ali também o cachorro fazia as vezes de sabiá, e eu, de cão preguiçoso, vendo-o roubar restos do lixo.
Com o tempo, o sabiá percebeu que o melhor estava na cozinha, e assim passaram a ser dois a me furtar, ou melhor, dois a trabalhar em cooperação: enquanto eu me ocupava de um, o outro aproveitava e me furtava; enquanto eu espantava o outro, o um já estava longe com seu prêmio.
E o tempo foi passando, o cachorro engordando e o sabiá cada dia mais alegre e cantante. Eles não mais se preocupavam um com o outro, e nem mesmo comigo. E assim os dias corriam lentos e preguiçosos.
Até que surgiu um gato.
Um gato é coisa bem diversa de uma ave ou de um cão, mais ainda de um ser como eu. Um gato é capaz de comer a ração, o sabiá e a minha comida, sem ajudar e sem ajuda.
E foi exatamente o que ele fez.
2
Eu resolvi estudar Biologia porque me encantava a vida. Não havia nenhum outro motivo além desse, óbvio e até ingênuo: gosto da vida (bio), logo estudo a vida (logia). Mas a vida na faculdade não era exatamente como eu imaginara que seria, cheia de vida! Havia a morte também e com ela, seu estudo.
Fiz aulas de taxidermia, a arte de conservar o corpo sem vida; fiz aulas de anatomia comparada onde, em meio ao cheiro de éter, confrontávamos animais mortos com seres humanos mortos; e fiz também experiências macabras, ou melhor, científicas. Mas nada poderia ser tão terrível como a aula de fisiologia animal.
Para cada turma, de seus 30 alunos, um cachorro servia de instrumento para estudarmos os mistérios da vida. O professor narrava o funcionamento do corpo do cão, deixando clara a correspondência entre aquela vida e a nossa:
- O sangue corre nas veias, em direção ao coração, que o bombeia rumo aos tecidos; substâncias produzidas pelo corpo regulam esse funcionamento, controlando a pressão arterial. A adrenalina, despejada na circulação sanguínea, em algum momento de perigo, aumenta a tensão arterial, acelera os batimentos cardíacos e prepara o corpo para a fuga.
Mas ali, naquele laboratório, o cachorro em perigo não tinha o menor controle sobre seu corpo. Nós o controlávamos, sob a coordenação de professores. Sedado sobre a maca de metal inox, o cão arfava, levando para seu pulmão o ar viciado de um laboratório pleno de curiosidade, medo e terror. 
Injetada a adrenalina na corrente do cachorro, ela corria também pelo meu corpo - minhas pupilas dilatadas enxergando para além daquela agonia, meu estômago embrulhado, minha pele pálida - acompanhando o derradeiro momento.
- O coração, exaurido pelo esforço, finalmente vai à falência!
Na maca, um corpo inerte, sem vida. Em meus olhos, uma vida inerte, sem corpo.
Na expressão dos jovens, lia-se o futuro de cada um deles: obstinação, surpresa, inquietação, piedade, desconfiança, dúvida. Palavras que com certeza podem construir um cientista. No meu caso, a única palavra que poderia me definir, ali naquele momento, era contradição. Palavra que acredito também definir a ciência, mas que me levou para a arte.
Observando aquela marionete viva, nas mãos da ciência, meus pensamentos vagavam por outro universo. Meus colegas aprendiam sobre fisiologia animal. E eu sobre quem era e quem gostaria de ser.
3
Enquanto eu escrevia este texto, uma fila de formigas caminhava pela mesa em direção ao computador, entrando por entre as teclas, em busca de alimento. Ou talvez fossem minúsculas formigas-correição, como eu, buscando palavras.
Estas formigas são conhecidas por caminharem em grandes grupos por longas distâncias, às vezes sob o solo da mata, atrás de insetos, artrópodes e pequenos vertebrados. Os moradores do interior do Brasil, que as chamam de Taocas, não se importam com a passagem delas por suas casas já que realizam uma verdadeira, e ecológica, desinfestação.
Assim, também eu permitia às pequenas Taocas que me ajudassem a criar o texto que se ia construindo dali para frente. Quem sabe se estes pequenos seres, ao entrarem em meio às letras, me permitissem encontrar as palavras certas. Talvez fossem apenas correições, editando meu pensamento, construindo outro sentido para esta crônica.
Em todo caso já não era mais possível saber se era eu quem escrevia sobre as formigas, ou se eram elas que escreviam sobre mim.
Em outras palavras, nós escrevíamos por meio de um autor ou, se preferir, o autor falava por meio de formigas.
Buscávamos não apenas as letras e palavras certas, mas acima de tudo entender o porquê do texto. Caminhando subterraneamente descobríamos que o sentido aparente exposto no papel não era o mesmo que se escondia por baixo dele. Era como se para cada frase escrita houvesse apenas uma palavra, às vezes até mesmo uma letra, que concentrasse todo o significado.
Mais que escolhas de palavras a serem digitadas, importavam as palavras a serem apagadas. Eram os espaços e vazios entre as palavras que pareciam significar, como se fosse necessário encontrar um caminho em meio a elas para finalmente poder escrevê-las.
E assim, entre vazios e dúvidas, entre espaços e incertezas, palavra por palavra foi sendo apagada, até que soçobrou todo o texto.
Assim como entraram, as formigas saíram do teclado, atravessando a mesa em direção à janela.

Talvez buscassem como eu, outras palavras. 


Esta crônica foi contemplada com o 2o. lugar no PRÊMIO SESC DE CRÔNICAS RUBEM BRAGA 2014. Aqui o link.