Os olhos
atentos pareciam vigiar o mundo exterior, daquela pequena toca incrustada no
barranco, na beira da estrada. Lá dentro, outros olhos pequeninos aguardavam a
hora certa de explorar a claridade de fora. Do lado de cá, a centenas de metros
de distância, meus olhos, por trás de uma teleobjetiva, acompanhavam cada
movimento em torno do buraco. Entre um
clique e outro, minha expectativa aumentava, na tentativa de ver quantos
filhotes sairiam de lá.
Ainda hoje
tenho uma das fotos: enquadrada pelas bordas do retrato, um círculo envolve o
rosto atento de uma coruja-buraqueira, onde dois pontos pretos e vivos olham
diretamente para quem segura a foto diante de si. É difícil de dizer quem olha
quem. É o fotógrafo que focaliza a coruja? Ou é a coruja que está atenta a ele?
Sou eu que observo a imagem da ave enquadrada pela foto? Ou os olhos na foto me
revelam?
Cansada de
esperar pela minha desistência, ou talvez convencida das minhas intenções
pacíficas, a mãe coruja finalmente saiu da toca e se colocou um pouco mais
acima, no mesmo barranco, sempre vigilante.
Daquele
buraco na terra foram surgindo algumas pequenas cabecinhas de coruja, de olhos
vivos, com ânsia de luz e curiosidade pelo mundo. Em pouco tempo eram quatro
pequenas corujas caminhando inseguras pelo gramado ao lado da toca.
Aquela
imagem, para mim, era algo inédito. Eu estudava os hábitos alimentares da
coruja-buraqueira há alguns meses e tudo o que eu conseguira ver eram algumas
corujas adultas empoleiradas em postes, cupinzeiros, alto de barrancos ou
espiando de dentro da toca. Meu trabalho se resumia em coletar e analisar
algumas egagrópilas. Eu explico: são bolas regurgitadas por aves de rapina que
contém pequenos ossos, pelos, e pedaços de insetos não digeridos. Através delas
- coletadas próximas às tocas - eu conseguia descobrir que animais eram caçados
pelas corujas.
Não posso
dizer que era um trabalho chato, ao contrário, era estimulante. Sentia-me como
um detetive em busca de evidências e provas, descobrindo que pequenos roedores,
aves, besouros e até cobras eram atacados pelas buraqueiras. Mas nunca havia
pegado em flagrante nenhum ataque.
E agora,
ali, na minha frente eu era capaz de ver algo novo: os filhotes de coruja
explorando o mundo exterior! Mas tudo o que passava pela minha cabeça era o
medo de que fossem flagrados por alguma outra pessoa ou predador.
Não demorou
muito e aquelas pequenas criaturas voltaram para sua casa e eu, pasmo, percebi
que não havia feito nenhum registro daquele momento. Meus dedos ficaram
paralisados sobre o botão da câmera, meus olhos encantados pela imagem, minha
memória fixando cada movimento.
As corujas
desapareceram no buraco e eu tirei meus olhos da câmera, abrindo meu campo de
visão: o barranco na beira da estrada, os carros percorrendo o asfalto, a
poluição dos escapamentos tomando o ar, a cidade crescendo em volta e os prédios
no horizonte com suas janelas, pequenas tocas onde milhares de olhos vigiavam o
mundo.