domingo, 30 de agosto de 2015

Passeio de bicicleta

Um dia desses resolvi experimentar a ciclovia e convidei minha filha mais velha. Convite aceito, lá fomos nós!
Até então minha visão da ciclovia era ou de pedestre, feliz por não correr mais o risco de ser atropelado na calçada por uma bicicleta; ou de motorista de automóvel, feliz por não correr mais o risco de atropelar uma bicicleta na rua.
Minha experiência de pedestre é a de que as calçadas da cidade precisam ser consertadas, pois estão cheias de buracos e mudam de textura, forma e tamanho na frente de cada casa. E eu, vez por outra, dou o azar de tropeçar nestas calçadas. Sempre achei estranha a responsabilidade da conservação da calçada ser do morador, uma vez que é um bem público, o que acaba gerando a falsa ideia de que a calçada na frente de cada casa é particular.
E minha experiência de motorista é a de que as ruas da cidade precisam ser consertadas, pois estão cheias de buracos e cada empresa que faz um buraco (para a água, luz, gás, telefonia e etc.) deixa um remendo pior que o outro e eu, azarado que sou, acabo sempre caindo no buraco. Sempre achei estranha, também, a ideia de que dentro do carro as pessoas se sentem num mundo privado, embora estejam, na verdade, em um espaço público – a rua. Nunca vi ninguém xingar o outro, de dentro de seu terno Armani ou de seu Jeans, só porque o outro entrou na sua frente na calçada, ou diminuiu a velocidade para entrar em casa sem sinalizar, ou desviou rapidamente de uma pomba que ciscava no passeio público.
Assim, não preciso comentar sobre os buracos na ciclovia (já os imaginava), ou sobre o caso de que a ciclovia teria retirado o espaço dos carros (estes já nos tiraram espaços demais na cidade).
Bom, retomando a narrativa, lá fomos nós, eu e minha filha, em busca daquelas bicicletas que certo Banco oferece no espaço público. Baixei o aplicativo do Banco A, mas só encontrei bicicletas do Banco B. Depois de rodar um tanto, superei minha falta de sorte e consegui retirar as bicicletas e usá-las sem gastar um tostão. Fiquei pensando apenas no porquê de haver dois sistemas de bicicletas, oferecidos no espaço público, por dois Bancos. Se querem nos oferecer um serviço (ideia muito louvável), porque não unificam os sistemas? Afinal, as bicicletas são utilizadas no espaço público, permitem aos Bancos publicidade no espaço público e, portanto, para o bem público, seria bem melhor termos mais locais onde pegar e devolver as bicicletas. É claro que isso daria um problema enorme aos Bancos, pois imagine só o bicicletário do Banco A só com bicicletas do Banco B! Ou vice-versa! Bom, então talvez devêssemos ter um sistema público de bicicletas, unificado, que poderia vender espaço de publicidade para qualquer Banco. Será mesmo que é uma boa ideia? Lembro-me agora dos pontos de ônibus que possuem um espaço enorme para a publicidade e, no entanto, para o meu azar, dificilmente encontro informações sobre as linhas que por lá passam, ou o mapa de transporte urbano da cidade ou, ao menos, o trajeto das linhas mais próximas.
Mas eu estava falando do meu passeio de bicicleta com minha filha. Resolvemos pegar a Avenida Sumaré, em direção à Vila Madalena, e percebi (a duras penas, para não dizer a duras pernas) que o tal trajeto é uma subida. Leve, mas infinita. Aí me lembrei de alguém que disse que a cidade de São Paulo não foi feita para bicicletas, pois tem muitas subidas. Mas onde tem subida, também tem descida! Nada melhor do que descer desembestado numa ladeira, sentindo o vento no rosto. Além do mais, se não é possível usar bicicleta na subida, também não deveria ser possível usar os pés. Sim, porque não faltam ladeiras em São Paulo, e algumas impossíveis até para os carros, especialmente em dias de chuva! E aí passei por baixo do metrô, na estação Sumaré. E lembrei-me da ironia de termos uma estação chamada Sumaré, que passa por cima da Avenida Sumaré, mas sem acesso à Avenida Sumaré! Nem uma escadinha! Nada! Que azar!

E assim, entre uma pedalada e outra, conversando sobre as contradições de São Paulo, eu e minha filha (ciclistas e pedestres que fomos, ou somos, ou queremos ser, como tantos nesta cidade), terminamos nosso passeio, felizes e cansados, subindo a pé uma ladeira e ultrapassando a fila de carros que, praticamente estacionados, mal conseguiam mover-se. Provavelmente alguém diria que era culpa de alguma bicicleta espaçosa; outro, quem sabe, de algum pedestre que, insolente, resolvera atravessar na faixa de segurança em pleno horário do rush; e eu ousaria dizer que a culpa era de alguns carros a mais naquelas ruas, justamente naquele horário, naquele dia, nesta cidade! Mas não, não pode ser. Seria muito azar!

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Crônica de um passeio público.

Então, de repente, eu saio com minha filha (a mais nova, de 3 meses, pois a outra já anda com suas próprias pernas, lindas por sinal!) no carrinho de bebê. Estou feliz, já que a prefeitura acaba de construir aquelas rampas nas esquinas para que cadeirantes, quem volta da feira e pais com carrinhos de bebês, possam caminhar com alguma dignidade pelas calçadas. Paro na esquina e aperto o botão do semáforo, aguardando o homenzinho (não podia ser uma mulher, uma criança ou um pai com um carrinho de bebê?) ficar verde. Demora, mas ele finalmente fica verde! Tenho que ser rápido (assim como devem também os cadeirantes e aqueles que fazem a feira) pois ele fica vermelho numa questão de segundos! Mal consigo colocar a primeira rodinha do carrinho na faixa de segurança e vejo um carro cruzando em alta velocidade (sim, porque ele tem que ser rápido, antes que algum outro carro faça o mesmo que ele!). Ok, estou passeando com minha filha de 3 meses, ela sorri para mim, faz sol, o dia é lindo e este é apenas mais um idiota que acredita que os carros movem São Paulo! Sigo em frente, rápido, pois o farol logo vai fechar! Ufa! Consigo alcançar a calçada oposta e ela, minha filha, ainda sorri! Opa! Mas há um caminhão descarregando alguma coisa muito importante na obra do outro lado da calçada, o que obviamente impede minha passagem. Desvio pela guia rebaixada, invado a rua, e alcanço bravamente, não sem antes temer um tanto, o outro lado! Continuo pela calçada e logo encontro o portão de entrada de um edifício, tomado por um táxi que bloqueia a calçada. Espero, imaginando que descerá de lá uma senhora de idade, que, sim, deve ter sua vida facilitada. Mas não! É apenas uma mulher (não sei precisar a idade dela, mas com certeza viveu menos que eu) com suas compras de supermercado! Ok, encontro um espaço e me esgueiro por entre o táxi e o muro e chego na próxima esquina. Novo semáforo, nova rampa feita pela prefeitura, novos carros invadindo a faixa! Sim, pois eles (os indivíduos dentro dos carros!) acham que o semáforo só serve para os carros! Respiro fundo, olho para minha filha e ela, nesta altura do campeonato já está com aquele olhar de “que é que está acontecendo no mundo aí fora!?”. Brinco com ela, falo alguma bobagem, tentando acalmá-la, enquanto um sujeito para do meu lado fumando um cigarro e falando ao celular. Por sorte a faixa de pedestres está livre e avanço rumo à pracinha! Mas, antes da pracinha, me deparo com uma motocicleta barulhenta que quase perfura meus tímpanos com seu escapamento barulhento (imagine o de minha filhinha!) A moto é linda, toda cromada, um espetáculo, brilhante! O motociclista também é um espetáculo à parte, vestido de couro, capacete estiloso e o escambáu! Me pergunto se faltou dinheiro para um escapamento silencioso, porque para o resto sobrou! Finalmente chego à pracinha e minha filhinha já está dormindo (sei lá como!), mas não posso parar nem por um segundo, senão ela acorda! Então lá vou eu andando com o carrinho pela praça sem parar, cruzando com mamães e papais e avós com seus carrinhos e filhinhos e netinhos, todos dormindo, mas ninguém pode parar se não eles acordam! Quando finalmente acho que posso parar, sentar num banco da praça e enganar o sono de minha filha, balançando o carrinho, aproxima-se uma senhora muito distinta e educada:
- Que linda! Ela já acordou! O meu netinho ainda está dormindo...
(Acordou?! Como assim? Ela deveria estar dormindo!)
- Pois é – respondo.
- Ele também acorda fácil – me diz a senhora – mas o segredo é não parar nunca! Me dá licença se não ele acorda! – E ela se vai com seu neto.
E eu volto pra casa com minha filhinha acordada, assustada, sem entender nada! 
- Papai também não entende nada! – digo a ela, fazendo uma careta, em meio à confusão da cidade!
Então ela sorri!
É tudo o que eu preciso!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Exercício da Solidão*


escrever é um exercício de solidão
antever o início da confusão
rever o vazio da razão
é ver o vício
são
.                                  exercício da solidão.
é
início
o devir do cio
do ócio para a ação
acender o pavio da criação
e viver o armistício com a solidão


* Poema selecionado e publicado no livro do 15o. Concurso de Poesias da Universidade Federal de São João del-Rei.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

bio.grafia

1
De tocaia, sobre o fio de eletricidade, o sabiá aguardava um momento de distração e, rápido como um raio, mergulhava em direção à bacia cheia de ração. Pegava sua parte com o bico e voltava para o fio, a observar a movimentação do cão.
O cão, por sua vez, deitava-se displicente a aguardar o momento de distração da ave. Seria apenas uma única vez, e nunca mais. Talvez, por isso mesmo, aguardasse sem pressa o exato momento, como um jogador que pouco se importa em perder algumas partidas, de olho no resultado final.
E eu observava diariamente a luta pela comida, entre o cão e a ave, da minha cozinha. Ali também o cachorro fazia as vezes de sabiá, e eu, de cão preguiçoso, vendo-o roubar restos do lixo.
Com o tempo, o sabiá percebeu que o melhor estava na cozinha, e assim passaram a ser dois a me furtar, ou melhor, dois a trabalhar em cooperação: enquanto eu me ocupava de um, o outro aproveitava e me furtava; enquanto eu espantava o outro, o um já estava longe com seu prêmio.
E o tempo foi passando, o cachorro engordando e o sabiá cada dia mais alegre e cantante. Eles não mais se preocupavam um com o outro, e nem mesmo comigo. E assim os dias corriam lentos e preguiçosos.
Até que surgiu um gato.
Um gato é coisa bem diversa de uma ave ou de um cão, mais ainda de um ser como eu. Um gato é capaz de comer a ração, o sabiá e a minha comida, sem ajudar e sem ajuda.
E foi exatamente o que ele fez.
2
Eu resolvi estudar Biologia porque me encantava a vida. Não havia nenhum outro motivo além desse, óbvio e até ingênuo: gosto da vida (bio), logo estudo a vida (logia). Mas a vida na faculdade não era exatamente como eu imaginara que seria, cheia de vida! Havia a morte também e com ela, seu estudo.
Fiz aulas de taxidermia, a arte de conservar o corpo sem vida; fiz aulas de anatomia comparada onde, em meio ao cheiro de éter, confrontávamos animais mortos com seres humanos mortos; e fiz também experiências macabras, ou melhor, científicas. Mas nada poderia ser tão terrível como a aula de fisiologia animal.
Para cada turma, de seus 30 alunos, um cachorro servia de instrumento para estudarmos os mistérios da vida. O professor narrava o funcionamento do corpo do cão, deixando clara a correspondência entre aquela vida e a nossa:
- O sangue corre nas veias, em direção ao coração, que o bombeia rumo aos tecidos; substâncias produzidas pelo corpo regulam esse funcionamento, controlando a pressão arterial. A adrenalina, despejada na circulação sanguínea, em algum momento de perigo, aumenta a tensão arterial, acelera os batimentos cardíacos e prepara o corpo para a fuga.
Mas ali, naquele laboratório, o cachorro em perigo não tinha o menor controle sobre seu corpo. Nós o controlávamos, sob a coordenação de professores. Sedado sobre a maca de metal inox, o cão arfava, levando para seu pulmão o ar viciado de um laboratório pleno de curiosidade, medo e terror. 
Injetada a adrenalina na corrente do cachorro, ela corria também pelo meu corpo - minhas pupilas dilatadas enxergando para além daquela agonia, meu estômago embrulhado, minha pele pálida - acompanhando o derradeiro momento.
- O coração, exaurido pelo esforço, finalmente vai à falência!
Na maca, um corpo inerte, sem vida. Em meus olhos, uma vida inerte, sem corpo.
Na expressão dos jovens, lia-se o futuro de cada um deles: obstinação, surpresa, inquietação, piedade, desconfiança, dúvida. Palavras que com certeza podem construir um cientista. No meu caso, a única palavra que poderia me definir, ali naquele momento, era contradição. Palavra que acredito também definir a ciência, mas que me levou para a arte.
Observando aquela marionete viva, nas mãos da ciência, meus pensamentos vagavam por outro universo. Meus colegas aprendiam sobre fisiologia animal. E eu sobre quem era e quem gostaria de ser.
3
Enquanto eu escrevia este texto, uma fila de formigas caminhava pela mesa em direção ao computador, entrando por entre as teclas, em busca de alimento. Ou talvez fossem minúsculas formigas-correição, como eu, buscando palavras.
Estas formigas são conhecidas por caminharem em grandes grupos por longas distâncias, às vezes sob o solo da mata, atrás de insetos, artrópodes e pequenos vertebrados. Os moradores do interior do Brasil, que as chamam de Taocas, não se importam com a passagem delas por suas casas já que realizam uma verdadeira, e ecológica, desinfestação.
Assim, também eu permitia às pequenas Taocas que me ajudassem a criar o texto que se ia construindo dali para frente. Quem sabe se estes pequenos seres, ao entrarem em meio às letras, me permitissem encontrar as palavras certas. Talvez fossem apenas correições, editando meu pensamento, construindo outro sentido para esta crônica.
Em todo caso já não era mais possível saber se era eu quem escrevia sobre as formigas, ou se eram elas que escreviam sobre mim.
Em outras palavras, nós escrevíamos por meio de um autor ou, se preferir, o autor falava por meio de formigas.
Buscávamos não apenas as letras e palavras certas, mas acima de tudo entender o porquê do texto. Caminhando subterraneamente descobríamos que o sentido aparente exposto no papel não era o mesmo que se escondia por baixo dele. Era como se para cada frase escrita houvesse apenas uma palavra, às vezes até mesmo uma letra, que concentrasse todo o significado.
Mais que escolhas de palavras a serem digitadas, importavam as palavras a serem apagadas. Eram os espaços e vazios entre as palavras que pareciam significar, como se fosse necessário encontrar um caminho em meio a elas para finalmente poder escrevê-las.
E assim, entre vazios e dúvidas, entre espaços e incertezas, palavra por palavra foi sendo apagada, até que soçobrou todo o texto.
Assim como entraram, as formigas saíram do teclado, atravessando a mesa em direção à janela.

Talvez buscassem como eu, outras palavras. 


Esta crônica foi contemplada com o 2o. lugar no PRÊMIO SESC DE CRÔNICAS RUBEM BRAGA 2014. Aqui o link.

sábado, 18 de abril de 2015

rafaela

Desenho de Sílvia Matos

Eu a via pequena,
na palma da minha mão,
e já era capaz de imaginá-la mulher.

Eu perseguia seus passos,
inseguros mas decididos,
abrindo caminhos desconhecidos.

Eu tocava sua pele,
descobria delicadezas femininas,
antes escondidas, lá dentro de mim.

Eu a ouvia murmurando,
ao pé de meu ouvido,
conselhos de uma sábia senhora.

Hoje eu a vejo mulher,
e, envolta em meus braços,
só consigo imaginá-la menina.
Me perco em seu abraço,
apertado e delicado,
e redescubro em mim,
 aquele antigo menino.

Se algo eu aprendi,
minha filha querida,
é que tudo pode ser reinventado.
Somos este eterno recomeço,
eu e você,
menino e menina,
pra sempre brincando
de viver a vida.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Catarina

Catarina, pequenina,
se o universo não tem fim,
onde é que eu estou?
No começo ou no fim?
Estou dentro ou estou fora?

Catarina, menina,
se o tempo jamais acabará,
quando é que estou?
No já foi ou no será?
E isso, ainda demora?

Catarina, me ensina,
se a vida é sonho,
como é que eu estou?
Aqui e agora, suponho,
mas criador ou criatura?

Catarina, Catarina...
Infinitas perguntas assim,
eu me faço todo os dias.
Mas uma não tem fim:
- É uma menina!
- E já tem nome, enfim?
- Catarina?

quinta-feira, 26 de março de 2015

Palavras

As palavras voam acima da minha cabeça
É um milagre enxergá-las assim.
Trazem consigo o farfalhar das asas, o zumbir doce dos insetos.
Não posso capturá-las enquanto vibram.
É preciso deixá-las livres até que se cansem.
E só então, quando pousam em minha língua, uma após a outra, é que se vão formando os poemas.

quarta-feira, 11 de março de 2015

cubo mágico




ação é palavra em movimento

é palavra movimento em ação

em  palavra  é  movimentação

movimento é ação em palavra

palavra ação é em movimento


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Vigilantes

Os olhos atentos pareciam vigiar o mundo exterior, daquela pequena toca incrustada no barranco, na beira da estrada. Lá dentro, outros olhos pequeninos aguardavam a hora certa de explorar a claridade de fora. Do lado de cá, a centenas de metros de distância, meus olhos, por trás de uma teleobjetiva, acompanhavam cada movimento em torno do buraco.  Entre um clique e outro, minha expectativa aumentava, na tentativa de ver quantos filhotes sairiam de lá.
Ainda hoje tenho uma das fotos: enquadrada pelas bordas do retrato, um círculo envolve o rosto atento de uma coruja-buraqueira, onde dois pontos pretos e vivos olham diretamente para quem segura a foto diante de si. É difícil de dizer quem olha quem. É o fotógrafo que focaliza a coruja? Ou é a coruja que está atenta a ele? Sou eu que observo a imagem da ave enquadrada pela foto? Ou os olhos na foto me revelam?
Cansada de esperar pela minha desistência, ou talvez convencida das minhas intenções pacíficas, a mãe coruja finalmente saiu da toca e se colocou um pouco mais acima, no mesmo barranco, sempre vigilante.
Daquele buraco na terra foram surgindo algumas pequenas cabecinhas de coruja, de olhos vivos, com ânsia de luz e curiosidade pelo mundo. Em pouco tempo eram quatro pequenas corujas caminhando inseguras pelo gramado ao lado da toca.
Aquela imagem, para mim, era algo inédito. Eu estudava os hábitos alimentares da coruja-buraqueira há alguns meses e tudo o que eu conseguira ver eram algumas corujas adultas empoleiradas em postes, cupinzeiros, alto de barrancos ou espiando de dentro da toca. Meu trabalho se resumia em coletar e analisar algumas egagrópilas. Eu explico: são bolas regurgitadas por aves de rapina que contém pequenos ossos, pelos, e pedaços de insetos não digeridos. Através delas - coletadas próximas às tocas - eu conseguia descobrir que animais eram caçados pelas corujas.
Não posso dizer que era um trabalho chato, ao contrário, era estimulante. Sentia-me como um detetive em busca de evidências e provas, descobrindo que pequenos roedores, aves, besouros e até cobras eram atacados pelas buraqueiras. Mas nunca havia pegado em flagrante nenhum ataque.
E agora, ali, na minha frente eu era capaz de ver algo novo: os filhotes de coruja explorando o mundo exterior! Mas tudo o que passava pela minha cabeça era o medo de que fossem flagrados por alguma outra pessoa ou predador.
Não demorou muito e aquelas pequenas criaturas voltaram para sua casa e eu, pasmo, percebi que não havia feito nenhum registro daquele momento. Meus dedos ficaram paralisados sobre o botão da câmera, meus olhos encantados pela imagem, minha memória fixando cada movimento.


As corujas desapareceram no buraco e eu tirei meus olhos da câmera, abrindo meu campo de visão: o barranco na beira da estrada, os carros percorrendo o asfalto, a poluição dos escapamentos tomando o ar, a cidade crescendo em volta e os prédios no horizonte com suas janelas, pequenas tocas onde milhares de olhos vigiavam o mundo.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ilhas flutuantes

Eu estava de férias na Bahia, com os pés na areia, os olhos no mar verde e a cabeça vazia como o céu azul, sem nuvens. Sentado na praia, olhava a maré subir e cobrir aos poucos os corais que se estendiam até bem longe, quase chegando ao horizonte. O Sol se retirava no mesmo ritmo da maré, lento e contínuo.
Então algo me chamou a atenção.
As crianças, pequenas e graúdas, corriam afoitas para um canto da praia, ali onde a areia se encontra com a vegetação, onde se escondem os lagartos e os siris. O que mais se escondia lá, para chamar tanta atenção? Corri como as crianças e descobri.
Saindo da areia, como pequenos seres pré-históricos que se desenterram, centenas de filhotes de tartaruga emergiam da areia e corriam desajeitadas em direção ao mar. As crianças gritavam eufóricas, acompanhando a difícil caminhada das tartarugas rumo às ondas. O mar as engolia sem pressa, uma após a outra.  Na água, sumiam ligeiras em meio às ondas, nadando ao mar aberto.
Olhava aquelas minúsculas tartarugas povoando o oceano como pequenas ilhas flutuantes que cresceriam pelo Atlântico. Daquelas que não naufragassem, teríamos notícias só daqui a 20, talvez 30 anos, quando já maduras, voltariam a colonizar o continente, depositando seus ovos na costa, naquele mesmo local em que estávamos agora.
E assim, viajando no tempo, imaginei as avós e bisavós e tataravós das tartarugas que sempre depositaram seus ovos nesta mesma praia, sob este mesmo sol e mar. Imaginei os índios pequeninos, acompanhados dos pais a observarem o mesmo espetáculo de agora. Imaginei o quanto modificamos essa paisagem ao longo dos séculos. Imaginei o que será desta praia daqui a trinta anos, quando algumas daquelas tartarugas que agora mergulhavam no mar, voltariam para a terra firme, depositando suas esperanças de futuro.


Imaginei tudo isso olhando para aquele imenso mar desconhecido e desejei boa-sorte às ilhas flutuantes.