Um dia
desses resolvi experimentar a ciclovia e convidei minha filha mais velha. Convite
aceito, lá fomos nós!
Até
então minha visão da ciclovia era ou de pedestre, feliz por não correr mais o
risco de ser atropelado na calçada por uma bicicleta; ou de motorista de
automóvel, feliz por não correr mais o risco de atropelar uma bicicleta na rua.
Minha
experiência de pedestre é a de que as calçadas da cidade precisam ser
consertadas, pois estão cheias de buracos e mudam de textura, forma e tamanho
na frente de cada casa. E eu, vez por outra, dou o azar de tropeçar nestas
calçadas. Sempre achei estranha a responsabilidade da conservação da calçada
ser do morador, uma vez que é um bem público, o que acaba gerando a falsa ideia
de que a calçada na frente de cada casa é particular.
E minha
experiência de motorista é a de que as ruas da cidade precisam ser consertadas,
pois estão cheias de buracos e cada empresa que faz um buraco (para a água,
luz, gás, telefonia e etc.) deixa um remendo pior que o outro e eu, azarado que
sou, acabo sempre caindo no buraco. Sempre achei estranha, também, a ideia de
que dentro do carro as pessoas se sentem num mundo privado, embora estejam, na
verdade, em um espaço público – a rua. Nunca vi ninguém xingar o outro, de
dentro de seu terno Armani ou de seu Jeans, só porque o outro entrou na sua frente
na calçada, ou diminuiu a velocidade para entrar em casa sem sinalizar, ou
desviou rapidamente de uma pomba que ciscava no passeio público.
Assim,
não preciso comentar sobre os buracos na ciclovia (já os imaginava), ou sobre o
caso de que a ciclovia teria retirado o espaço dos carros (estes já nos tiraram
espaços demais na cidade).
Bom,
retomando a narrativa, lá fomos nós, eu e minha filha, em busca daquelas bicicletas
que certo Banco oferece no espaço público. Baixei o aplicativo do Banco A, mas
só encontrei bicicletas do Banco B. Depois de rodar um tanto, superei minha
falta de sorte e consegui retirar as bicicletas e usá-las sem gastar um tostão.
Fiquei pensando apenas no porquê de haver dois sistemas de bicicletas,
oferecidos no espaço público, por dois Bancos. Se querem nos oferecer um
serviço (ideia muito louvável), porque não unificam os sistemas? Afinal, as
bicicletas são utilizadas no espaço público, permitem aos Bancos publicidade no
espaço público e, portanto, para o bem público, seria bem melhor termos mais
locais onde pegar e devolver as bicicletas. É claro que isso daria um problema
enorme aos Bancos, pois imagine só o bicicletário do Banco A só com bicicletas
do Banco B! Ou vice-versa! Bom, então talvez devêssemos ter um sistema público
de bicicletas, unificado, que poderia vender espaço de publicidade para qualquer
Banco. Será mesmo que é uma boa ideia? Lembro-me agora dos pontos de ônibus que
possuem um espaço enorme para a publicidade e, no entanto, para o meu azar, dificilmente
encontro informações sobre as linhas que por lá passam, ou o mapa de transporte
urbano da cidade ou, ao menos, o trajeto das linhas mais próximas.
Mas
eu estava falando do meu passeio de bicicleta com minha filha. Resolvemos pegar
a Avenida Sumaré, em direção à Vila Madalena, e percebi (a duras penas, para
não dizer a duras pernas) que o tal trajeto é uma subida. Leve, mas infinita.
Aí me lembrei de alguém que disse que a cidade de São Paulo não foi feita para
bicicletas, pois tem muitas subidas. Mas onde tem subida, também tem descida!
Nada melhor do que descer desembestado numa ladeira, sentindo o vento no rosto.
Além do mais, se não é possível usar bicicleta na subida, também não deveria ser
possível usar os pés. Sim, porque não faltam ladeiras em São Paulo, e algumas impossíveis
até para os carros, especialmente em dias de chuva! E aí passei por baixo do
metrô, na estação Sumaré. E lembrei-me da ironia de termos uma estação chamada
Sumaré, que passa por cima da Avenida Sumaré, mas sem acesso à Avenida Sumaré!
Nem uma escadinha! Nada! Que azar!
E
assim, entre uma pedalada e outra, conversando sobre as contradições de São
Paulo, eu e minha filha (ciclistas e pedestres que fomos, ou somos, ou queremos
ser, como tantos nesta cidade), terminamos nosso passeio, felizes e cansados, subindo
a pé uma ladeira e ultrapassando a fila de carros que, praticamente
estacionados, mal conseguiam mover-se. Provavelmente alguém diria que era culpa
de alguma bicicleta espaçosa; outro, quem sabe, de algum pedestre que,
insolente, resolvera atravessar na faixa de segurança em pleno horário do rush;
e eu ousaria dizer que a culpa era de alguns carros a mais naquelas ruas,
justamente naquele horário, naquele dia, nesta cidade! Mas não, não pode ser.
Seria muito azar!

